Resenha e Critica: A Epopeia de Camões

Tipo de documento:Revisão Textual

Área de estudo:Física

Documento 1

Autor de inúmeras obras de grande relevo, entre elas a História da Cultura em Portugal e a História da Literatura Portuguesa. Este texto se propõe a refletir acerca da complexa tarefa de fazer escolhas, fato este possível de acontecer no âmbito da ideologia da formação educativa. Luís de Camões, embora tenha nascido em 1524 ou 1525, tempo literário do primeiro período Clássico no século XVI, recebeu uma educação Humanista relativa ao período anterior, ou seja, o século XV. Isto não significa de modo algum que sua formação tenha sido antiquada, pois entre um período histórico e outro não ocorre uma ruptura radical, mas uma transformação na qual são mantidos aspectos ainda considerados inovadores. Como primeiro passo, será apresentada a fonte de inspiração na qual o Poeta se abasteceu para escrever sua obra publicada em 1572, ou seja, à volta aos padrões clássicos da antiguidade greco-latinos da cultura. Na sequência, seguiremos o tema das escolhas apoiando-nos, a princípio em Génese D’os Lusíadas nas definições das epopeias primitivas e epopeias de imitação, seguindo em Os Temas Humanísticos com a origem erudita de Os Lusíadas, transitando em A Ideologia Cavaleiresca, com sua ideologia nobre na qual o Poeta recomenda que cada um não se lhe permita ir além de sua função, nos detendo em A Contradição Central D’os Lusíadas com a oposição entre o humanismo e o espírito cavaleiresco, passando em A Estrutura D’os Lusíadas: O mundo Histórico com os objetivos da viagem dos portugueses, chegando enfim em O Significado da Mitologia N’os Lusíadas, aqui considerado um porto no qual aportaremos trazendo na bagagem o percurso da travessia.

Conforme o acima mencionado, a educação humanista de Camões situa-se no tempo de um espírito novo, época em que se descobriu que o ser humano era capaz de dominar o universo colocando-se no seu centro, ou seja, o tempo do antropocentrismo, período da cultura renascentista e moderna. Desde o século XV, o homem vinha sendo compreendido como medida de si mesmo e de todas as coisas e, portanto capaz de enfrentar os perigos do mar para conquistar novos mundos ainda desconhecidos. A convicção de que o homem dispunha de uma força racional, leva as pessoas cultas da época de Camões, no século XVI, a identificarem-se com a cultura da Antiguidade a qual valorizava o homem e a vida terrena, o que era bem distinto da orientação teocêntrica do período medieval onde Deus estava no centro do universo.

Por tais razões, tudo converge para que Luís de Camões volte os olhos para as antigas epopeias da Antiguidade greco-latina, como por exemplo, a Eneida de Virgílio. O Poeta escolhe compor sua obra, porque se tem como capaz de tal proeza. Com efeito, o Poeta leva em conta a confiança que deposita em sua educação erudita, por meio da qual se percebe em um tempo histórico, no qual o mercantilismo se dedica a fortalecer o Estado e enriquecer auma certa classe, agora denominada burguesia. Por consequência e imaginação supomos que Camões tenha ficado animado com a perspectiva de ascensão econômica burguesa e que devido, ao menos por certa proximidade social ele fosse brindado com algum benefício, uma vez que padecia de grave crise financeira.

No campo da cultura, Luís de Camões conta com a independência da língua portuguesa que obtém autonomia frente à língua galego-português, que até então vigorava em toda a Península Ibérica. Ao mesmo tempo a língua literária se desenvolve, distinguindo-se da língua falada. Este é um momento em que a noção de estado anula o conceito de grupo étnico, há uma vida civil e as guerras são para profissionais. Posto isso, torna-se importante assinalar que as noções de estado, de vida civil e de guerra, agora são abstrações, ou seja, como algo que existe somente como ideia, e não como algo que se pode tocar. Não se trata, portanto de uma coisa concreta, palpável.

Neste sentido os deuses e heróis étnicos são transformados em alegorias como um símbolo, um objeto que pode significar outra coisa para além do que se vê e a questão das dificuldades das escolhas do que essa representação possa revelar se faz presente. Em Os Temas Humanísticos, Saraiva qualifica Os Lusíadas como um produto literário erudito do período do humanismo. Por outro lado, o Poeta desenvolve, a passos largos o caso cavaleiresco dos doze pares da Inglaterra. Ora, este caso é de ordem transnacional, pois se trata de uma possível afronta entre nobres e damas inglesas, as quais sem defensores apelam ao eminente Duque de Alencastro, que heroicamente convoca igual número de cavaleiros lusitanos encarregados de resgatar a honra das ofendidas damas.

Por fim, Camões concede a vitória aos bravos cavaleiros defensores. Saraiva, por sua vez contesta o episódio afirmando que o caso somente ganhou notoriedade pela nomeação recebida em Os Lusíadas. Neste relato que o Poeta seleciona a sua escolha tem como personagens nobres ingleses e lusitanos, contrapondo um dos preceitos humanistas, que é precisamente a crítica da teoria que fundamenta os benefícios usufruídos pela nobreza, ou seja, os direitos obtidos pelo fato de origem de nascimento. Acrescentando, ainda que as Musas estejam acima dos poetas e estes acima dos heróis. Retomando, pois o tema da complexidade das escolhas tem-se aqui um poeta pensando e agindo de acordo com sua formação humanista e, por consequência com a sua ideologia. Devido ao exposto, não resistimos à uma frase de Vinícius de Moraes onde ele diz: “Mas ele desconhecia / Este fato extraordinário / Que o operário faz a coisa / E a coisa faz o operário.

Desta maneira, certas posições camonianas seriam contraditórias e outras, por sua vez não corresponderiam aos fatos da realidade. Considerando, em hipótese que os valores específicos da educação humanista, no sentido de igualdade afetam tanto o chamado “povo néscio” quanto ao ilustre Poeta que se utiliza das letras para narrar acontecimentos que lhe servem, de tema apenas como material para o poema. Interessante observar que a recomendação de guerra somente é indicada contra os chamados infiéis submersos em vícios mil, como também é condenada entre os cristãos. A contradição está posta apesar da presença ou da ausência da ideologia religiosa acompanha a incoerência. Nesta mesma linha segue-se a tendência cosmopolita do humanista, ou seja, ele não admite divisão seja de terras ou de clãs.

Entretanto, admite a noção de nacionalidade e de estado, mas um estado monárquico com exclusão do sistema feudal. Além do culto à língua nacional e do elegante latim. Apesar disso, o crítico reconhece o relevo da tromba marítima, bem como do fogo-de-santelmo e do escorbuto, incluindo ainda os Trabalhos do Mar registrado no Canto V. Infelizmente os referidos episódios não contam com a presença humana, além de serem descritos e não narrados. Até mesmo os diálogos não tem existência entre o homem e o mar, ao contrário da saga grega. Mas, logo a seguir as escolhas camonianas são elogiadas pela batalha de salado, assim como a batalha de aljubarrta e os resumos de Tétis, sem esquecer a beleza do episódio de Inês de Castro.

Assim, entre conquistas, batalhas e tragédias Os Lusíadas segue, sem ao menos a narrativa da formação de uma nação, de uma pátria, reduzidas aos sentimentos do Poeta e não em seus 8. Por fim, arriscamos a indicar a recomendação do presente texto-crítico aos leitores, que além do interesse nas áreas humanas, disponham de grande gosto e energia, porque um passeio mágico no carro de Apolo e de Marx acende o sol do mundo dos símbolos, o que convenhamos, não é pouco.

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